Grandes Desafios Para a Competitividade da Zona Franca de Manaus

Por Tiago Gabriel

As organizações vêm passando por profundas mudanças periodicamente. Vive-se, hoje, na era da   informação, em que a velocidade das mudanças é frenética devido a diversos fatores inerentes as organizações, mesmo naquelas instaladas em regimes de governos e políticas econômicas diferentes a que é exercida, mais igualitariamente, no mercado ocidental. São mutações, de cunho econômico, social e político, que tornam o mercado cada vez mais análogo.

A similaridade no oferecimento de produtos e serviços faz com que as organizações empresariais inovem, sejam pró-ativas, que criem necessidades nas pessoas, que aperfeiçoem cada vez mais os seus bens e serviços, aplicando ferramentas de gestão que possibilitem redução de custos e que agreguem diferencial competitivo, diferencial que necessita ser exacerbado nas empresas que estão instaladas no Pólo Industrial de Manaus (PIM) pelas peculiaridades existentes na região amazônica.
A trajetória do Pólo Industrial de Manaus, percorrida durante os seus 43 anos de existência, está atrelada a inúmeras dificuldades sociais, mudanças econômicas e batalhas políticas, o que modificou por diversas vezes a forma de atuação das empresas instaladas na região e que recebem incentivos fiscais dos governos federal e estadual, e administrados pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA).

Um grande passo foi dado, para as empresas que ainda não tinha percebido a importância das ferramentas de gestão, mais precisamente ferramentas e métodos da qualidade, quando se passou a  exigir, por parte dos órgãos responsáveis pelo gerenciamento e controle dos incentivos fiscais, que as empresas implantassem umas das ferramentas básicas da gestão da qualidade, ISO 9001,  sendo, essa iniciativa, de substancial importância para despertar no empresariado local a importância de ferramentas, métodos e processos, como essa certificação, para o fortalecimento da indústria local, agregando valor e um diferencial competitivo, e o interesse pela utilização e implementação de todo um sistema de gestão que permita o mercado amazonense manter-se competitivo em relação aos outros grandes centros de produção que adotam diversas outras ferramentas que possibilitam efetivos resultados positivos.

Houve grandes avanços em algumas organizações em relação à percepção da importância da implementação de modelos de gestão como ferramenta competitiva. Mas como foi identificado através de pesquisa e vivenciado em algumas empresas, que terão suas identidades mantidas em sigilo por questões éticas, algumas dessas organizações abordaram, e ainda abordam essa temática apenas como uma obrigatoriedade para sua permanência no portfólio de empresas que se beneficiam dos incentivos fiscais. Empresas que não souberam identificar a extrema importância, e os benefícios imensuráveis para a excelência em gestão.

Analisando referências conceituais, e como o termo foi historicamente empregado,  identificou-se que o conceito de qualidade ainda é abordado, por algumas empresas, como nos primórdios da era industrial em que a qualidade nas indústrias era tratada como um setor em que especialistas limitavam-se a inspecionar os produtos acabados em sua totalidade para evitar que, ao chegar ao cliente, estivessem isentos de erros ou falhas, mas que não reduzia custos referentes ao reparo dos produtos. Esse processo apenas identifica um erro que já ocorreu e o prejuízo financeiro foi então contabilizado.

Passando a operar em larga escala de produção, visto que as empresas são bastante cobradas com relação a prazos, não haveria tempo hábil para que houvesse inspeção nas mercadorias em sua totalidade, outrossim, ocasionaria prejuízo econômico para a empresa, foi quando adotou-se técnicas de amostragem, que reduzem o tempo de inspeção consideravelmente. Sendo essas técnicas ainda utilizadas por algumas empresas, como foi vivenciado em 2 anos por esse que vos escreve, os responsáveis pelo setor da qualidade são operadores de linhas de produção que apenas são incumbidos de realizar a verificação dos produtos através da técnica de  amostragem, ignorando completamente ferramentas, processos e metodologias da gestão da qualidade.

Através de intensas pesquisas foi possível identificar, também, que não são todas as organizações do Pólo Industrial de Manaus que, tão somente, estão interessadas nos incentivos fiscais e focadas na geração de mercadorias para a sua consequente comercialização, e que ainda geram produtos e prestam serviços com métodos arcaicos e que incumbe uma empresa a ter prazo de validade.

Ainda que muitas das empresas operem da forma supramencionada, existem empresas que são modernas, não somente se tratando de maquinário, o sentindo físico, mas de técnicas e procedimentos que visam a excelência em gestão. A MASA é uma organização, com fins lucrativos, referência nacional quando se cita modelo de gestão focada na excelência, sendo ela localizada em Manaus.

Através do processo de benchmarking, a empresa criou o seu próprio modelo, o Modelo de Gestão MASA,  como referência os conceitos da Gestão pela Qualidade Total, o Modelo de Excelência em Gestão da Fundação Nacional da Qualidade, e utiliza o SGI – Sistema de Gestão Integrada como método da operacionalização das suas estratégias organizacionais.

São muitas as empresas que ainda resistem em métodos e definem Qualidade como no início do século XX, atrelada a essas atitudes tradicionalistas, está a dificuldade de percepção, que as impedem de  visualizar as possibilidade de crescimento empresarial quando utilizada essas metodologias.

Dificuldades estruturais

Esse modelo de gestão funciona e depende sistematicamente de um macrosistema que enfrenta dificuldades, a estrutura logística, que, na região, é considerada precária comparada aos outros grandes centros de produção.

O escoamento de mercadorias é feito de forma limitada, segundo estudos da LCA Consultores, a estrutura logística do país é uma das piores do mundo. As empresas que estão localizadas na região utilizam o modal de transporte mais oneroso, o aéreo, e que não suporta mais a contínua demanda por insumos e mercadorias acabadas, visto que o sistema rodoviário não é interligado com o resto do país, e a possibilidade de transporte fluvial é sazonal,  devido a vazante dos rios, as empresas ficam impossibilitadas de transportar contêineres por navios cargueiros em sua totalidade de armazenamento.

O que delimita ainda mais nossa competitividade é a precariedade na prestação de  serviços básicos como a energia elétrica que, de acordo com dados pela Eletrobrás Amazonas Energia, é insuficiente para atender  a demanda da capital e que torna-se ainda mais limitado entre os meses de agosto e novembro, meses em que as empresas aumenta a sua produção para atender a demanda de natal. O valor da banda larga no Amazonas tem o custo 800% superior aos demais estados da Região Norte, de acordo com pesquisas realizadas pela Federação  do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas (FECOMÉRCIO).

Caso melhorias não sejam realizadas o futuro da Zona Franca de Manaus está comprometido, o que a peculiariza como um centro de produção que possui data de validade, 2033, ano em que foi estabelecido como limite para concessão de incentivos fiscais. O Amazonas depende desse modelo para o seu desenvolvimento, apesar de, segundo o economista Rodemarck Castello Branco, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), afirmar que a dependência do estado em relação ao PIM reduziu ao longo dos últimos 20 anos, já que Manaus cresceu como uma cidade de serviços, afirmando que de 1997 para 2006, o porcentual arrecadado do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) caiu de 61% para 52,3%, enquanto o de serviços e comércio saltou de 39% para 46,6%, confirmando a necessidade de manutenção do modelo industrial e modernização, para que, mesmo depois do prazo estabelecido para a concessão dos privilégios tributários, a Zona Franca e o estado cresçam de forma perene.

É de se refletir que devido à supracitada precariedade logística da região, a inexistência de políticas públicas de melhorias dos serviços básicos para a efetiva operacionalização dessas empresas, a falta de profissionalismo de algumas indústrias quando da aplicação dessas metodologias e processos de gestão, não somente na teoria, mas também na prática, que o futuro do Amazonas é incerto, podendo em 2033 perder o seu principal gerador de receitas.

Com comprometimento dos setores público e privado, sem egocentrismo e vaidades políticas, no investimento de soluções infra-estruturais e na aplicação dessas metodologias de forma efetiva, além de investimento no potencial turístico ecológico da região como alternativa ao modelo industrial, não seria mais necessária as constantes guerras fiscais que alguns estados travam contra o modelo Zona Franca. O estado estaria em condição mais confortável, com bases sólidas pra um desenvolvimento firme e constante, concorrendo, estrutural e tributariamente, com  todos os grandes centros produtivos do país, de maneira potencialmente competitiva.

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