Festival de Parintins: Tradição X Comercialização

Por Rafael Luiz

Parintins caminha para o quadragésimo sexto festival folclórico. Entre os últimos 17 anos, os tempos mais promissores do boi-bumbá, ocorreram várias mudanças. É como já dizia uma toada do Garantindo: “Parintins para o mundo ver”. O festival dos bumbás ganhou completa identidade do Estado inteiro, elevando-se ao topo da representatividade de cultura amazonense e inclusive passando a ser reconhecido nacionalmente.

Apesar das várias mudanças ocorridas no boi-bumbá, pouca coisa mudou no que tange ao regulamento do festival. Na última década, por exemplo, as poucas mudanças no regulamento podem ser facilmente relembradas: O ítem “organização do conjunto folclórico” foi extinto; os itens “tuxauas luxo” e “tuxauas originalidade” foram acopladas apenas no ítem “tuxauas”.

Em 2011 discussões sobre o regulamento do festival foram levantadas e o panorama está acirrado, os bois-bumbás estão literalmente “contrários”. As diretorias de Garantido e Caprichoso divergem opiniões e nenhum consenso entre ambos foi tomado. O resultado disso: Retaliações por parte do Secretário Estadual de Cultura Robério Braga (que por sinal já demonstrou por várias vezes não gostar muito dessa cultura local).

As dicussões sobre o regulamento há muito tempo vêm sendo uma necessidade nesse festival. Ano após ano Parintins se mostra surpresa com alguns julgamentos dos jurados, o que inclusive leva algumas vitórias dos bois a serem questionadas se foram merecidas. Porém, essa discussão vem sendo trazida de forma maléfica ao festival. Sim, maléfica! Essa discussão veio à tona por causa das transmissões televisivas por parte da Rede Bandeirantes. Os baixos picos de audiência nas transmissões em rede nacional foi o ápice para levantar a questão do regulamento. O interesse do público sulista é extremamente baixo.

E ao invés de buscar um regulamento em que se busque julgar a síntese, a apresentação compacta e sobretudo o teor folclórico de arena, as diretorias discutem tempo de apresentação no bumbódromo e o pior: discutem deletar um dia do festival. Não dá para concluir outra coisa: Eles tratam o boi como uma figura comercial onde o folclore foi vendido para a imagem que vai aos olhos de um sulista que o despreza.

É óbvio que o tempo de apresentação não vai mudar o interesse de ninguém e muito menos trará um regulamento justo. Enquanto se discute tempo de arena, não se fala nada em mudança dos ítens. Dos 21 julgados no festival, 9 são ítens individuais, o que equivale a quase metade do que se é apurado para se declarar um boi campeão. Será que o que é julgado em Parintins é realmente um festival folclórico? Alguns podem defender e dizer que por trás desses 9 indivíduos há um trabalho de várias pessoas, mas é imensurável então o que tem por trás de um ítem coletivo.

Entre os ítens individuais julgados, pode-se sugerir uma fusão entre três e passar a se tornar apenas um ítem: rainha do folclore, cunhã-poranga e porta-estandarte possuem entre si diferenças mínimas, sem nexo e tais ítens possuem um objetivo similar de mostrar a beleza feminina amazônica. O resultado de uma fusão desses ítens traria pelo menos vinte minutos a mais de apresentação a cada dia para os bois valorizarem a cênica de uma lenda, figura típica ou ritual, que são itens que realmente elevam a emoção e o nome desse festival.

Mas a verdade é que não há uma justificativa plausível para tudo o que está sendo de fato discutido pelas diretorias dos bois, pois a discussão não vai nada além de interesses comerciais. O regulamento do festival folclórico de Parintins precisa urgentemente de uma mudança, porém, uma mudança em que a apuração valorize a apresentação, que dê ênfase à cênica de arena, que faça com que a temática seja explorada e que coloque os ítens individuais com sua devida menor importância. Não precisamos de um novo regulamento que nos faça perder nossa alegria de ver o boi-bumbá por mais tempo na arena em nome de um interesse meramente financeiro. Mas também não queremos mais esse mesmo regulamento que nos faz continuar sem saber quem vai vencer o festival mesmo depois de vermos que aquele boi foi o melhor a folclorear.

2 responses to this post.

  1. Posted by hickribeiro on 11 de março de 2011 at 1:26 PM

    O Brasil é um país de dimensão continental, tem uma das maiores populações do mundo. Isso significa dizer que estamos em um país multifacial, onde os problemas não são os mesmos e a cultura tampouco. Logo, o que se produz, folcloricamente ou culturalmente falando, no Norte pode algumas vezes não agradar aos povos das outras 4 regiões, e vice-versa.
    O problema não é a falta de interesse do restante, mas a desvalorização daqueles que deveriam apreciar. Num mundo capitalista tudo acaba virando negócio e antes de qualquer decisão, usa-se a expressão: a troco de quê?
    É triste ver o dinheiro comprar sua origem, suas crenças, seus valores, me permita dizer: Sinto vergonha alheia nesses momentos.

    http://www.hickribeiro.wordpress.com

    Responder

  2. É Hick, concordo com você, no entanto tenho a impressão de que o norte absorve muito mais o que vem de fora do que o inverso. Prova disso estão nas músicas, futebol, gírias, costumes, etc. Tiro isso por base tendo o Amazonas, mas tenho a impressão que a maioria dos estados nortistas também é assim, excessão do Pará e talvez o Acre. Obrigado pela participação!

    Responder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: