Essa tal tecnologia

Por Xico Branco

 

Das  coisas  que  ouvimos muitas  são  estórias contadas e recontadas  com um ponto  a mais aqui  ou  ali. Descritas ou  recriadas  com  a  emoção  do  locutor  da  vez. Porém,  sempre  com  a  mesma essência. Esta que  vou  lhes narrar aconteceu não sei onde e nem quando, e não lembro quem me contou. Só sei que aconteceu lá pras bandas do Rio Solimões perto de nem sei o lugar.

Bem, foi lá pelos idos de 1970, numa pequena cidade do  nosso imenso interior amazônico certa vez apareceu por lá um  fotógrafo . Ou como  o  pessoal  preferia  chamar, um  retratista.

Pronto,  foi  aquela agitação  geral.  Todo  mundo  queria sair numa  foto para pendurar na  sala de estar.  Todo ser vivente, desde o mais humilde ao mais afortunado, queria  ter  esta  lembrança  tão  nova e moderna pendurada na parede de casa, mesmo que fosse só em duas cores: o preto e o branco.

Foi  aquela romaria. A cada dia a banca  colocada na pequena praça da matriz era menor, diante a montoeira de gente  que  vinha  em  busca  da  novidade.  Aquilo  já virara feira de negócio de tão grande que era a fila. A esta altura já tinha gente vindo dos  interiores próximos. A notícia havia se espalhado no boca a boca dos pescadores e canoeiros do lugar. Uns vinham atrás da bendita fotografia. Outros vinham para faturar um extra. Picolé da massa, chopinho de fruta, tapioca, pé-de-moleque, suco, merenda completa; de tudo era possível comprar nesse camelódromo improvisado. A economia do município fora revitalizada pela tecnologia, diziam uns. As autoridades de plantão aproveitavam o ensejo para fazer um  palanque eleitoral visto  a  proximidade do pleito eleitoral. Candidatos diziam que aquilo era coisa do progresso que eles haviam prometido.  E na onda do prometer, já havia  candidato  prometendo  até cinema. Outro, posto de gasolina; esquecendo que boi e cavalo são movidos a capim e  não a combustível.  O  candidato a prefeito era o mais eufórico e falava com entusiasmo sobre seus projetos. Destacando uma usina de energia elétrica para dar fim a tudo que era lamparina e lampião das redondezas. Enquanto isso,  o homem das fotos  recebia e tomava nota em seu caderno do nome e endereço do fotografado. Dava um pedaço de papel como comprovante e dizia que em quinze dias as fotos estariam prontas e ele retornaria para entregá-las.

Além do dinheiro, haviam aqueles  que  traziam  presentes  para  agradar  e  quem  sabe merecer  uma  foto  melhor ou ainda receber  primeiro  a  sonhada fotografia. Foi assim todos os dias de sol a lua. A fila não diminuíra um único dia. E até que cada morador daquelas redondezas não passasse um pente no cabelo, vestisse um terno ou um vestido de chita e sorrisse pra sua máquina, ele não se daria por satisfeito. Dizia que todos seriam fotografados custasse o tempo que fosse e assim ganhava ainda mais a simpatia do lugar.

Após uma semana e meia quando  já estava  estourando  de  tanto  dinheiro  e  presentes,  o  homem  decidiu partir  rumo  à cidade  grande. Prometeu voltar em quinze dias com todas as fotografias. Na noite anterior da partida o prefeito e vereadores da situação e oposição juntos – coisa inédita naquela terra- ofereceram um jantar de gala com direito a baile e banda de fora.

No  dia  da partida  foi aquela  celebração.  Aplausos  e gritos eufóricos eram ouvidos a distância. Estavam do prefeito ao feirante para se despedir do homem. O pequeno porto estava abarrotado de gente  e o empurra-empurra era geral. Tinha até banda de música tocando marchinhas carnavalescas. Dizem que foi esse o primeiro carnaval fora de época do Brasil, mesmo antes da Bahia ter os seus; batizaram-no de “Carnafoto”. O pula-pula foi até altas horas. Teve gente que ainda hoje conta que conheceu a pessoa amada nessa folia. E outros dizem que nunca se embriagaram tanto. Foram três dias e duas noites de festança.

Passada a alegria da partida do amado retratista, todos ficaram  contando os  dias do seu aguardado regresso. Nos pequenos botecos e bancas de venda da cidadezinha o assunto era aquele. Um dizia que era amigo do retratista. – Ele até já comeu lá em casa! Outro se gabava do gentil moço ter namorado sua filha e prometer casar quando voltasse. – Ué! Mas ele namorou a minha também! Disse outro coçando a cabeça. Estórias e mais estórias eram contadas daquele homem. Já havia até projeto na câmara, enviado em regime de urgência urgentíssima pelo prefeito, para construir-se e inaugurar uma estátua do fotógrafo na praça principal da cidade, que passaria a ter o nome do pai do querido homem.

Passado  os  quinze dias prometidos e com a estátua já na praça coberta por uma lona grossa, todos estavam ansiosos e de olhos grudados na curva do rio. Nada  do  homem  aparecer nas primeiras horas da manhã. – Ah! Deve ter acontecido algo. – Dizia um. – Ele é um homem tão bom! Completou outro.

Deu meio-dia e nada. – Com certeza ele chega agora a tarde, num vou almoçar senão posso perder a chegada. – Dizia aquele pai com a filha toda alinhado ao seu lado. No fim da tarde, sem que o homem aparecesse, o prefeito reuniu os vereadores para formar uma CPI e enviar os membros até a cidade mais próxima para ver o que tinha ocorrido. Passaram dois dias e foi  aí que  começou  a desilusão. A comitiva voltou sem nada encontrar, nem uma única pista daquele homem eles puderam descobrir. Passaram vinte dias. Um mês. E nem sombra do dito cujo.

Quando perceberam que haviam caído num golpe foi aquela choradeira geral. Desde o  prefeito ao pescador  mais  humilde todos lamentavam o ocorrido. O prefeito dizia que aquilo fora um plano da oposição. A oposição por sua vez estava formando uma comissão de vereadores para vir ter com o governador do estado uma audiência e expor o fato, mas diante a quase certeza que poderiam ser motivo de riso, desistiram da ideia. Pior que ninguém sabia quem era aquele safado; antes amado. Num sabiam de nada. De onde ele era. De onde viera. Por meses comentou-se aquele vexame. Teve mulher que largou o marido porque este dera ao retratista a única vaquinha leiteira que tinham no quintal.  O Chico da fazenda São Carlos tinha dado um quarto de boi e feito uma churrascada na fazenda pra comemorar a foto ao lado da esposa, dos filhos e da empregada. Foi o assunto da moda por muito tempo naquela cidadezinha de beira de rio. A estátua da praça foi esquartejada por uma dezena de homens, mulheres e crianças. Uns pedaços foram jogados ao rio e outros feito em pó à marretadas. Foram uns três dias e duas noites de quebra-quebra na cidade, diz-se ter sido essa a primeira onda de saque em uma cidade brasileira, mesmo antes dos arrastões no Rio de janeiro.

Depois do sofrimento veio a semana em que todos andavam cabisbaixos um com vergonha do outro, sem saber quem era mais trouxa. Até que o senhor tempo, que num é trouxa, trouxe o efeito do esquecimento ou da vergonha coletiva que nos cala, e todos acabaram deixando isso pra lá, voltando ao cotidiano: ver canoas e barcos no seu passear, indo e vindo de lá pra cá.

One response to this post.

  1. Prezado Xico,

    Bonito texto, bem escrito. Que pena que o final não foi feliz! Parabéns pelo seu blog e continue escrevendo! Seja Feliz e faça as pessoas felizes.é importante!
    Fica coM Deus!

    Nejmi

    Responder

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