Manaus Moderna

Por Xico Branco

Havia três minutos que o despertador tridimensional me acordara com imagem e voz de minha filhinha brincando no chão da sala. Era hora de ir trabalhar. Levantei-me e segui em meu tapete planador rumo ao banheiro. Desliguei o sistema de ar condicionado apenas com um comando de voz. No banheiro, meu chuveiro me cumprimentou e disse que o banho estava “OK”. Enquanto tomava meu banho, videofonei para o computador de bordo de meu carro e disse que podia me aguardar no local de sempre. Depois do banho, vesti meu traje refrigerado, tomei minhas pílulas matinais e li algo no meu relógio de pulso das notícias do dia. Despedi-me de minha mesa e ela esboçou um sorriso em sua base digital e acionou o comando remoto de nossa doméstica cibernética, que imediatamente veio e pôs-se a limpar tudo.

Como era sexta-feira, Decidi descer de carona no helicóptero planador do rapaz que limpava as vidraças de meu apartamento no centésimo andar, localizado na área nobre do Ponta Negra High Tech Tower, e que naquele instante iria limpar os apartamentos subterrâneos. Cheguei ao meu estacionamento privativo; pelo qual pagava alguns milhares de Irreais por mês. Entrei em meu carro e segui pela antiga estrada da Ponta Negra; hoje, estrada Super Condutora. No caminho fui ficando por dentro do noticiário através de meu canal particular da TV-Car, que informava tudo sobre tudo, vinte e quatro horas por dia. Soube que na quinta-feira um vereador da ala oeste havia sido morto com quatro disparos atômicos dados por robores que ocupavam um carrocóptero preto, sem a placa de identificação laser. Com certeza mais um daqueles crimes insolúveis.

O computador de bordo me alertou da necessidade de abastecer e logo me indicou um posto de abastecimento que estava fazendo promoção. Autorizei a ida e logo estávamos abastecendo. Ao terminar paguei com meu cartão do Bit BEA e prosseguimos nosso caminho. Preferi evitar a Av. Constantino Nery, pois os engarrafamentos causado pelos ônibus velhos, ainda do século passado, deixavam o trânsito lento; além do que, soubera há pouco pelo telejornal, que naquele dia haveria manifestação dos jatos-taxistas pela legalização da profissão, além de uma passeata pela volta da meia passagem para os estudantes e idosos.

Cheguei ao centro suspenso da Zona Franca de Manaus, onde tinha uma agência de turismo, no horário de sempre. Ao descer, autorizei meu carro a seguir para o estacionamento e desligar-se.

Entrei em meu escritório. Cumprimentei minha secretária cibernética, Dona XKF3. Ela me retribuiu o bom dia e me informou que um de meus melhores guias havia pedido a conta hoje pela manhã, devido um cliente o tê-lo confundido com um humano. – Droga! Resmunguei. Tudo bem. Arranjaria outro. Afinal, li que existem uns modelos novos que além de falarem todos os idiomas do sistema espacial, ainda leem os pensamentos galaxianos.

Segui direto para minha sala onde um cliente me aguardava assistindo projeções tetra dimensionais de pacotes turísticos. Era um chinêsquiano, representante de um grupo que desejava conhecer a floresta Amazônica. Liguei meu tradutor de pulso e comecei explicando que para aquele fim dispúnhamos de dois pacotes fechados. Um que incluía estadia num hotel suspenso na selva por uma semana, além de passeios com tênis a jato sobre o encontro das águas e sobre áreas preservadas da  extinta floresta. Amazônica. E outro, que tinha estadia num hotel subaquático com vista à direita para o Rio Negro e à esquerda para o Rio Amazonas. Com passeios sobre a floresta de várzea e mergulhos com trajes iluminados que permitiam o mergulho noturno, além de passeios sobre tartarugas gigantes do século passado. Ele ficou bastante interessado e ficou de em breve acertar tudo com Dona XKF3.

Após uns instantes fui informado que o governador cibernético, Malzonbraquino Junior, acabara de conceder em decreto que a partir daquele dia nenhum robô prestaria serviços por menos de dois milhões de Irreais por mês. Dei graças a Deus ter perdido um há pouco. O motivo era a crise galáctica que estava abalando os mercados da via láctea e já chegara a nosso planeta, deixando Manaus com um dos custos de vida mais caros da via láctea.

Depois dessa liguei meu sósia celular e fui relaxar um pouco em minha cadeira virtual. A tarde teria que ir visitar uns clientes no Distrito Industrial da órbita de marte e precisava estar descansado para esta longa viagem de trinta e seis minutos.
Nota do Autor: Crônica escrita em 1990, revisada em 2009.

One response to this post.

  1. Gosto dos seus textos, Xico, por tratarem de um assuntos sérios, mas tem um tom meio que engraçado. Em relação ao texto acima, muito bom. Não duvido muito que até 2050 grande parte dos acontecimentos dessa estória serão realidade, e os ônibus velhos farão parte do nosso cotidiano, se depender da população, principalmente.
    Abraço!

    Responder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: