Desculpa bem bolada

Por Xico Branco

Rodrigo era considerado um rapaz comum. Na rua onde morava era mais um dentre muitos. Tinha os mesmos hobby da turma; estudava no mesmo colégio do bairro; jogava bola de tardinha com a moçada, enfim, levava uma vida normal. Seu pai era carpinteiro. E sempre que podia lhe dava algumas dicas da profissão, que já com treze anos. – pensava o pai. Devia aprender uma profissão. Afinal de contas, daquela velha carpintaria tirara e tirava o sustento da família até hoje com muito orgulho. Vira para Manaus em sessenta e nove com a mulher e a filha mais velha, Lúcia. Aquela época foi morar no bairro de Educandos, próximo a feira da Panair em um quartinho alugado de três por quatro. Trabalhara de carregador, peixeiro, vendedor de merenda, enfim, fizera de tudo um pouco. Carpintaria era coisa que ele não tirara da mente nenhum instante: – “Um dia ponho minha oficina e vou trabalhar tranquilo”. – Dizia Seu Raimundo sempre.

A vida era dura. Dinheiro difícil. Lúcia estudava o primeiro grau no Colégio Estelita Tapájos, afinal  levava como um dos nomes o famoso rio de sua terra natal, Tapajós. E isso era uma lembrança boa para eles.

Do último trabalho como vendedor de merenda conseguiu juntar algum dinheiro. Pouco; mas o suficiente para em 1980 comprar um chão lá no bairro da Glória, onde viveriam até 1995. Na glória, já no que era seu, colocou sua tão sonhada Carpintaria e levou a cabo sua profissão de coração. Seus móveis faziam sucesso e a freguesia era muito boa. Em 1990 as coisas começaram a dar pra trás na Movelaria. Os pedidos eram poucos; mal dava pra comer e comprar madeira. A madeira havia aumentado muito nestes últimos anos e isso levava as pessoas a darem preferência pelos compensados e aglomerados dos móveis das lojas. Por isso, em 95,  Dona Ana, Lúcia, Seu Raimundo e agora Rodriguinho, decidiram em conjunto vender a casa e ir para outro bairro onde a oferta de clientes fosse melhor.

Depois de muito procurarem um lugar adequado as suas novas expectativas. Decidiram pela Cidade Nova I e pra lá foram. Compraram uma boa casa com terreno de dez por trinta, que já possuía nos fundos um belo galpão, levantado do muro até mais ou menos uns quatro metros do terreno; sendo esse um bom espaço para sua oficina. Logo no primeiro mês conseguiu ótimos pedidos. Isso porque antes de fechar negócio na casa havia dado uma sondada na área e vira que não havia nenhuma movelaria por perto. Bem, aqui começa a estória que quero narrar para vocês.

Rodrigo era o xodó de Seu Raimundo. Tudo que ele queria era que o filho se formasse em doutor. Pra isso deixava o moleque bem à vontade no serviço. Não cobrava dele mais que algumas peças lixadas por dia, mesmo porque tinha dois trabalhadores bons para o serviço, que contratara na comunidade.

A escola era sagrada. Os deveres de casa e as provas do filho eram motivos de severas observações de Seu Raimundo todos os dias. As notas de Rodrigo eram boas. Ele já estava na oitava série no ano de 96. No mês de maio as notas do menino começaram a cair gradativamente até o ponto de tirar sua primeira nota vermelha. Seu Raimundo quase fica doido. Foi bater na escola pra falar com a Diretora. Descobriu que Rodrigo desde que havia entrado para o grupo de dança de Boi Bumbá da escola que não pensava em outra coisa. Entre os colegas era fácil o ouvir dizendo que iria ser dançarino de toada de um grande cantor. Esse era o seu grande sonho.

– Pronto! Era o que me faltava. Esse moleque nunca me deu trabalho e agora vem com essa. – Resmungava Seu Raimundo para a Diretora do colégio.

– Olha Seu Raimundo, eu juro que pensava que o senhor sabia de tudo, pois quando foi preciso a autorização do responsável para ele entrar no grupo de dança e ser dispensado da educação física, ele até trouxe a autorização que eu mandei para a sua casa assinada por sua esposa, a Dona Ana. Olhe é esta a autorização.

De novo Seu Raimundo mudou de fisionomia.

– Num acredito, até a Ana sabia disso! Ela me paga!

– Ora Seu Raimundo, ele é ótimo dançando. O senhor precisa ver. O seu filho tem um grande futuro. E essa é a nossa cultura, pense bem. Aliás, ele foi inscrito num grande concurso que um famoso levantador de toada está promovendo para escolher um dançarino. Eu acho que ele tem todas as chances de ser vencedor. Dê uma chance pro seu filho Seu Raimundo!

– Mas Dona, eu quero que esse menino seja é doutor, não uma marica de dançarino de boi rebolando pra lá e pra cá com roupa de índio. Onde já se viu índio branco. O quê que meus vizinhos vão falar de mim. E meus conterrâneos? Ai meu Deus! Eu mato esse moleque! Deixa eu chegar em casa que ele me paga. – Dizia seu Raimundo em estado de raiva e perplexidade.

– Calma Seu Raimundo. Olhe o que lhe falei. Pense bem! – Tentava em vão a diretora apaziguar a situação.

Lá foi Seu Raimundo bufando de raiva pra casa. – Ah moleque! Me enganando e ainda por cima com a mãe dele sabendo de tudo. A Ana também vai ter que me dá boas explicações sobre essa tal autorização, ah se vai. De tão transtornado, nem notara que estava falando sozinho no meio da rua.

Quando chegou em casa foi logo chamando todo mundo pra sala e esbravejando:

– Muito bem! Quem vai ser o primeiro a me explicar esse negócio de dançarino. Você Rodrigo? Você Ana? Ou até mesmo você Lúcia? Que pelo visto só eu é que não to sabendo de nada. – Questionou ele vermelho de raiva.

– Pai! -Disse Lúcia. Calma pai.  Agente ia te falar. Só que agente ta esperando o resultado do concurso que sai hoje. Nós mandamos um DVD que foi gravada lá no colégio para ser avaliado e daqui a pouco sai pela rádio o nome do vencedor. Tenha paciência, por favor! – Finalizou ela tocando em seu ombro carinhosamente.

– Quer dizer que eu faço tudo pra você ser doutor em seu moleque? E você quer ser marica de boi, é isso é? – Falou levantando-se com as mãos na cabeça.

– Olha aqui Raimundo – Interrompeu Dona Ana. – Respeite o seu filho. Ele só ta fazendo aquilo que o coração dele diz ser melhor para ele. – O tom de voz de suas esposa soara ríspido.

– Ah é! E eu? Onde fica minha moral de pai?

– Raimundo, meu velho. –Continuou Dona Ana. Lembra quando agente morava lá no Educandos e você vivia dizendo: Um dia coloco minha oficina de móveis!  Lembra?
Seu Raimundo balançou a cabeça positivamente, mas completou dizendo. – Sim!  E o que aquilo tem a ver com essa frescura?

– Tem a ver que aquilo era seu maior sonho homem. E eu sempre estive do teu lado, pois sabia que você ia ser mais feliz fazendo aquilo que realmente gostava e não se matando em coisas que te faziam lamentar a vida. Foi por isso que quando ele veio me pedir pra autorizar eu assinei. Eu pensei na felicidade de nosso filho, deixei de lado meus orgulhos bobos e pensei nele. Conversei muito com ele e vi o brilho nos olhos dele quando me pedia. Você não iria deixar Raimundo, nós sabíamos disso. Desculpe-nos, nós não queríamos te enganar, apenas estávamos procurando ajudar o menino. Entenda por favor!

Um breve silêncio tomou conta da sala. Repentinamente Lúcia o interrompeu:

– Venham, vai sair o nome do vencedor. Corram! Pai! Mãe! Vem Rodrigo!
Todos foram pra perto do rádio. Seu Raimundo seguiu meio cabisbaixo, ainda sem aceitar muito bem a conversa. Nisso o locutor anuncia:

-… e o grande vencedor do concurso. Que irá dançar no grupo do famoso cantor de toadas, Silvano, que estará inclusive  partindo para a Europa na próxima semana para uma grande quantidade de shows, é: Rodrigo da Silva, da Cidade Nova I!

Enquanto a euforia tomava conta de todos e a vizinhança já entrava porta adentro gritando e batendo palmas, Rodrigo abraçou seu pai, deu-lhe um grande beijo e disse:

-Pai! Eu te amo! O senhor me perdoa, por favor? – Disse olhando em seus olhos.

-Ora filho! – Dando uma breve pausa falou alto – Por favor! Todos venham até aqui. Eu na qualidade de pai do mais novo dançarino dessa cidade quero dizer algo pra todo mundo ouvir. Meu filho muito obrigado! Muito obrigado a toda minha família pela lição que me ensinaram hoje  e que vale pra cada um de nós. Se agente tem um sonho. Se ama fazer alguma coisa, devemos lutar para que ele se torne realidade. E quando perguntarem se o meu filho já é doutor vou dizer que sim. Ele já é doutor sim! Doutor de dança de boi! E serei cada dia mais orgulhoso do filho que tenho. – Finalizou ele com olhos banhados de lágrimas.

Enquanto uns se abraçavam e outros choravam de alegria. Lúcia já colocava um CD de toadas para que a  primeira apresentação oficial do campeão começasse.

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