Mania de Ser

 Por Xico Branco

Quem  trabalha  ou  trabalhou  em alguma  fábrica de Manaus e conhece o sistema de transporte que as empresas usam para levar e trazer seus  funcionários,  também  já devem,  como  eu,  ter passado diversas situações dentro  destes amigos nossos de cada dia: os ônibus de rota.
A  que  vou  lhes  narrar  é uma  vivida  por  mim  há alguns  anos. Certo dia, íamos  para  a  empresa logo pela manhã e o  ônibus pregou de repente. Ai foi que percebi  como  a  maioria  de  nós nestas  situações se tornam especialista imediato  da matéria.  Neste caso, mecânica de ônibus velho.
O  trambolho  havia  parado do nada numa  ladeira e não pegava de jeito nenhum.  A moçada imediatamente começou  o alvoroço:

– Empurra,  bota a mulherada pra empurrar. – Gritou um. Outro mais afoito disse:

– Foi o pino da parafuseta que quebrou!  – A gargalhada foi geral.

Aquele mais gaiato que não deixa nada passar em branco sem tirar uma casquinha, aproveitou e berrou lá de  trás:

– Isso é mulher de bode, meu irmão. Duvido se num é!

Pronto. A confusão estava feita. Foi o que faltava pras gatinhas e as já não tão gatinhas entrarem na onda. Foi uma chiadeira  geral.

Uma retrucou:

– Isso deve ser  algum corno magoado  que ta azarando a rota!

– Que nada!  Isso  é algum boiola camuflado que  tem aqui dentro. Ele deve ter brigado com o bofe e veio pra rota cheio de mágoa. –

Disse a Célia do Almoxarifado II.

Essa foi a campeã de risos até então. Foi  aquela  zona  geral. Enquanto isso o coitado do motorista tentava desesperadamente consertar o ônibus. Os colegas menos afoitos e que não entraram na onda  do xinga pai e xinga mãe,  davam suas catedráticas  opiniões:

– Eu tenho certeza que isso é carburador sujo! – Falou o João do áudio. O Zé lá do vídeo, retrucou na hora:

– Que nada! Se fosse carburador tinha engasgado antes e não  engasgou! Isso foi à pressão do  óleo que baixou e travou as roda.

– Ta doido Zé! – Gritou o Vítor da engenharia. Eu estudei mecânica na Escola Técnica. Isso é injeção eletrônica. Bico sujo!

– Então rasga teu diploma de engenheiro sua anta! -Disse rindo o hilário Nonato da manutenção. Tu achas mesmo que essa lata vela tem injeção eletrônica é? Isso aqui é mais velho que a posição fazer necessidade agachado. É do tempo que lamparina dava choque!

– Pronto. Foi outro momento de risadas pra todo lado dentro do velho ônibus.
Nessa  mesa  redonda  de  claras  e  objetivas  opiniões sobre a ciência  das leis  do  movimento  e  do  equilíbrio; que teoricamente  explicavam  a  ação e o  efeito dos vários  porquês  relacionados  ao  fato; eu, quieto e calado. Atenciosamente ouvindo, mas não  entendendo nada. Num dado momento pensei em alertar os caros colegas que estávamos num ônibus velho e não num foguete a caminho da lua, dado a gama e o teor de algumas opiniões, do tipo que:

– …Aquilo era  coisa  da aerodinâmica do  chassi lateral, que estava  em  desacordo  com  a  potência  real  de empuxo do  motor,  em  relação  ao  efeito  do  ar,  numa  subida  de  45 graus. – Firmemente  defendida pelo Leonel  lá do CQ. Depois descobriria que ele era meio maluco mesmo.

Graças a Deus  não  foi preciso minha  intromissão. O tempo  havia  passado  é já chegava  outro  ônibus  para  dar continuidade à rota.

Eu, agradecido, sorri. E sem falar, apenas pensando, descobri que o burro ali era eu. Pois não entendia patafinas de  prego  de  ônibus.  Mas  que seguindo o ditado e mantendo minhas  orelhas abaixadas,  havia ganhado uma estória de  mão beijada.

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