O Homem da Lata

Por Xico Branco


Fazia  vinte  minutos  que  aquele  homem  estava  ali sentado naquela lata. Estranhamente olhava para um lado e para  outro,  como  que  preocupado  com  alguma  coisa ou esperando  alguém. Eu, que estava na janela do segundo andar do prédio em que trabalhava,  observava tudo e curiosamente  tentava  entender por que alguém improvisaria um banco numa lata, sendo que ali perto havia uma parada de ônibus com lugares vazios no banco.

Ele estava na beira da rua e ficava demonstrando  uma  certa  preocupação em seus gestos. Vez ou outra ele fazia uma careta e colocava as mãos apertando o joelho virando o rosto de lado. Chegava a puxa o pano da calça aparentando estar fazendo força para algo. Ele usava uma dessas batas de trabalho por cima da blusa e esta estava cobrindo parte de suas coxas.

Agora já fazia quase dez minutos. O homem continuava do mesmo  jeito.  Com  os  mesmos  gestos  curiosos.  Eu  já estava  a ponto  de  descer e ir até lá perguntar o  que estava acontecendo ou  se  ele  precisava  de  algo.  – Pensei.  Aquele  pobre homem  poderia  estar  perdido  ou  procurando  alguém. Enfim, estava louco pra saber o que se passava. Eu era pura curiosidade.

Já era  quase  noite.  A  exatos quinze minutos  estava  observando aquele homem sentado na lata. Daqui a pouco teria que ir embora  e poderia perder o  desfecho  daquela situação inusitada.

Pronto.  Era hora de ir embora. -Agora basta! Pensei alto. Já era  hora de  matar  minha curiosidade. Observei  que ele continuava  do  mesmo  jeito, no mesmo lugar. O  movimento  de  transeuntes havia  diminuído  bastante  e  ele  estava  quase  solitário  naquele trecho da rua. Com exceção de uns poucos fregueses do  lanche  ali  perto  e da  senhora que atravessava  a rua, o movimento havia cessado bastante.

Aguardei  a  rua  esvaziar-se mais  um pouco e sai correndo rumo ao elevador. Enquanto descia ia pensando na surpresa que me esperava.  O  que  poderia  ser?  – Pensava comigo mesmo. Quando  saí do elevador as carreiras, quase derrubo algumas pessoas que estranharam minha pressa. Já na rua fitei  os olhos rumo ao local onde o homem estava, porém, não mais o vi. Apenas a lata continuava no mesmo lugar, o homem havia sumido.  – Droga! Resmunguei baixinho. Decidi ir até lá assim mesmo. Ao  me  aproximar  da  lata  senti  um  odor  estranho. Desses que a gente sente em banheiro de clube de forró, só que com serviço completo. A catinga era insuportável.  Prendi a respiração e me aproximei mais um pouco para olhar dentro da lata. Você não  imagina  o  tamanho da  ruma.  Aquele pobre  homem devia ter sentido uma baita duma dor de barriga; daquelas  que  quando  a  gente  pensa que vem seca, já vem molhada. Aquela mais rápida que energia elétrica. No desespero do momento aquela  lata  fora  sua  salvação. De resto, ele esperou a hora certa de dar no pé sem passar um vexame ainda maior.

Pronto, minha  curiosidade  estava  satisfeita e ainda fedia no ar. Agora poderia ir para a parada de ônibus e torcer para chegar logo em casa, pois; não sei por complexo adquirido ou pelo pastel  com caldo-de-cana de mais cedo, eu estava começando a sentir umas leves pontadas na barriga.

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