Archive for the ‘Cultura’ Category

O gato, a minhoca e o passarinho.

por Xico Branco

Uma minhoca estava sobre a terra tomando um pouco de sol e revirando a terra fofa. Um gato que a estava espreitando para dar um bote e come-la, ficou esperando o momento certO gato, a minhoca e o passarinho.

Xico Branco

Uma minhoca estava sobre a terra tomando um pouco de sol e revirando a terra fofa. Um gato que a estava espreitando para dar um bote e come-la, ficou esperando o momento certo. De repente veio um passarinho num vôo rasante e quase apanha a minhoca com seu bico. O gato observou que o passarinho sentou num galho próximo e de repente tirou a atenção da minhoca para a nova possível presa. Enquanto o passarinho se preparava para tentar pegar a minhoca novamente, essa já estava entrando na terra para se salvar. O gato, que mantinha um olho no pássaro e outro na minhoca, não sabia o que fazer ao ver a minhoca sumindo para dentro da terra. Na dúvida, ele decidiu agir e correu para dar um salto sobre a minhoca. A comeria primeiro. O passarinho no mesmo instante voou do galho para tentar pegar a minhoca outra vez. Os dois se chocaram em pleno ar, no instante em que o gato pulava. Cada um caiu para um lado sem nada entender. O passarinho se recuperou e assustado voou novamente para o galho, enquanto o gato se lambia e limpava seu corpo sujo de terra. A minhoca, que percebera tudo e já sumia dentro da terra úmida, olhou para trás e disse sorrindo:

– A dúvida de uns pode atrapalhar os planos de outros!o. De repente veio um passarinho num vôo rasante e quase apanha a minhoca com seu bico. O gato observou que o passarinho sentou num galho próximo e de repente tirou a atenção da minhoca para a nova possível presa. Enquanto o passarinho se preparava para tentar pegar a minhoca novamente, essa já estava entrando na terra para se salvar. O gato, que mantinha um olho no pássaro e outro na minhoca, não sabia o que fazer ao ver a minhoca sumindo para dentro da terra. Na dúvida, ele decidiu agir e correu para dar um salto sobre a minhoca. A comeria primeiro. O passarinho no mesmo instante voou do galho para tentar pegar a minhoca outra vez. Os dois se chocaram em pleno ar, no instante em que o gato pulava. Cada um caiu para um lado sem nada entender. O passarinho se recuperou e assustado voou novamente para o galho, enquanto o gato se lambia e limpava seu corpo sujo de terra. A minhoca, que percebera tudo e já sumia dentro da terra úmida, olhou para trás e disse sorrindo:

– A dúvida de uns pode atrapalhar os planos de outros!

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O Homem da Lata

Por Xico Branco


Fazia  vinte  minutos  que  aquele  homem  estava  ali sentado naquela lata. Estranhamente olhava para um lado e para  outro,  como  que  preocupado  com  alguma  coisa ou esperando  alguém. Eu, que estava na janela do segundo andar do prédio em que trabalhava,  observava tudo e curiosamente  tentava  entender por que alguém improvisaria um banco numa lata, sendo que ali perto havia uma parada de ônibus com lugares vazios no banco.

Ele estava na beira da rua e ficava demonstrando  uma  certa  preocupação em seus gestos. Vez ou outra ele fazia uma careta e colocava as mãos apertando o joelho virando o rosto de lado. Chegava a puxa o pano da calça aparentando estar fazendo força para algo. Ele usava uma dessas batas de trabalho por cima da blusa e esta estava cobrindo parte de suas coxas.

Agora já fazia quase dez minutos. O homem continuava do mesmo  jeito.  Com  os  mesmos  gestos  curiosos.  Eu  já estava  a ponto  de  descer e ir até lá perguntar o  que estava acontecendo ou  se  ele  precisava  de  algo.  – Pensei.  Aquele  pobre homem  poderia  estar  perdido  ou  procurando  alguém. Enfim, estava louco pra saber o que se passava. Eu era pura curiosidade.

Já era  quase  noite.  A  exatos quinze minutos  estava  observando aquele homem sentado na lata. Daqui a pouco teria que ir embora  e poderia perder o  desfecho  daquela situação inusitada.

Pronto.  Era hora de ir embora. -Agora basta! Pensei alto. Já era  hora de  matar  minha curiosidade. Observei  que ele continuava  do  mesmo  jeito, no mesmo lugar. O  movimento  de  transeuntes havia  diminuído  bastante  e  ele  estava  quase  solitário  naquele trecho da rua. Com exceção de uns poucos fregueses do  lanche  ali  perto  e da  senhora que atravessava  a rua, o movimento havia cessado bastante.

Aguardei  a  rua  esvaziar-se mais  um pouco e sai correndo rumo ao elevador. Enquanto descia ia pensando na surpresa que me esperava.  O  que  poderia  ser?  – Pensava comigo mesmo. Quando  saí do elevador as carreiras, quase derrubo algumas pessoas que estranharam minha pressa. Já na rua fitei  os olhos rumo ao local onde o homem estava, porém, não mais o vi. Apenas a lata continuava no mesmo lugar, o homem havia sumido.  – Droga! Resmunguei baixinho. Decidi ir até lá assim mesmo. Ao  me  aproximar  da  lata  senti  um  odor  estranho. Desses que a gente sente em banheiro de clube de forró, só que com serviço completo. A catinga era insuportável.  Prendi a respiração e me aproximei mais um pouco para olhar dentro da lata. Você não  imagina  o  tamanho da  ruma.  Aquele pobre  homem devia ter sentido uma baita duma dor de barriga; daquelas  que  quando  a  gente  pensa que vem seca, já vem molhada. Aquela mais rápida que energia elétrica. No desespero do momento aquela  lata  fora  sua  salvação. De resto, ele esperou a hora certa de dar no pé sem passar um vexame ainda maior.

Pronto, minha  curiosidade  estava  satisfeita e ainda fedia no ar. Agora poderia ir para a parada de ônibus e torcer para chegar logo em casa, pois; não sei por complexo adquirido ou pelo pastel  com caldo-de-cana de mais cedo, eu estava começando a sentir umas leves pontadas na barriga.

A primeira lembrança que tenho em minha vida é do dia em que minha irmão nasceu, 15 de setembro de 1972, tinha quase 3 anos. Lembro que estava deitado em uma rede que estava atada debaixo da escada do sobrado em que morávamos. Lembro que perguntava para as pessoas se a cegonha já tinha trazido minha irmãzinha e lembro que meu irmão estava deitado em outra rede perto da minha e ficava brincando sem se preocupar muito com aquilo. Lembro que minha mãe estava no quarto e que algumas vizinhas e a parteira estavam lá com ela, esperando a cegonha chegar pela janela; era o que me diziam. Lembro que as pessoas passavam com toalhas e com bacias com água da cozinha para o quarto e eu ficava tentando entender pra que eram. Lembro que não havia outras crianças na casa nesse dia. Lembro que de tanto esperar fui vencido pelo sono e adormeci. Lembro que pela manhã acordei e minha maninha já estava num berço com um mosqueteiro cor rosa protegendo-a das carapanãs. Ela era bem branquinha e loira, muito bonita. Lembro que fiquei na janela tentando entender como a cegonha não bateu num cajueiro muito grande que tinha no quintal e que tampava toda a passagem para a janela. Lembro que esse cajus eram enormes e nunca mais eu vi cajus como aqueles; a não ser num pé que depois meu pai plantaria em nossa nova casa. Lembro que do nascimento de minha irmã é isso que me recordo. Lembro que o sobrado que agente morava era lindo, ficava no morro do sapo, na estrada que chamavam de rodagem, mas que depois descobri que o nome é Avenida Magalhães Barata. Lembro que a escada de acesso para a parte de cima era muito bonita e que depois esta escada foi levada e posta em nossa nova casa, foi a única parte que ficou inteira quando meu pai desmontou nosso sobrado. Lembro que a casa era coberta com cavacos de madeira. Era uma casa somente cm um grande quarto, uma sala, cozinha e uma pequena varanda na frente. Lembro que a parte de cima era somente um quarto e havia a parte do forro da varanda, onde agente costumava se esconder se equilibrando sobre os caibros. Lembro que ela era branca nas laterias e na frente as ripas eram azuis. Lembro que entre uma tábua e outra havia ripas para tampar as frestas. Lembro que havia uma porta frontal e uma porta lateral. Lembro que na varanda haviam cadeiras de vime e uma pequena mesa, onde mamãe colocava toalhas de seus bordados e um vaso de porcelana com flores colhidas do jardim que havia na frente da casa. Lembro que o jardim era bem cuidado e haviam muitas plantas que não lembro o nome. Lembro que debaixo de uma dessas plantas, que formava uma espécie de cobertura, algumas pessoas diziam que ali havia aparecido uma mulher vestida de branco e que muitos diziam ser Nossa Senhora. Lembro que haviam flores brancas, vermelhas, amarelas; e me lembro de muitos mais..
Obs: Este texto faz parte do imaginário das memórias do autor do post.

Brincando de Figuras

Por Xico Branco

Nessa terça vou postar uma de minhas poesias já premiadas. O texto  abaixo foi destaque especial em 1999 em concurso de poesia da Revista Nacional Brasília. É uma brincadeira em forma de versos com as figuras de linguagem e pensamento. Curioso é dizer que quando fiz esta poesia eu tinha 17 anos, morava em Santarém e cursava o ensino médio. Para compô-la eu usei uma gramática de Ulisses Infante como apoio linguístico e fui concatenando cada figura com um verso criado por mim, onde a mesma se insere, ou seja, o verso é o próprio exemplo da figura em questão.

O título da mesma nasceu de uma antiga brincadeira que agente tinha quando eu era criança. Quando algum álbum de figurinhas era lançado para colecionar, eu e meus amigos brincávamos colocando uma figura sobre a outra, com o lado da imagem para baixo. Quem conseguisse desvira-las batendo com a mão em forma de concha, num movimento rápido de bater e puxar, ganhava as mesmas. Isso era feito para adquirir figuras que um ou o outro ainda não possuía no álbum. Eis a alusão que usei para titular esta poesia.

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BRINCANDO DE FIGURAS
Sou elipse por enquanto
E agora, zeugma
E polissíndeto.
Já sou assíndeto neste momento
E no mesmo momento momentaneamente sou pleonasmo
É melhor, melhor é ser iteração, não
Melhor mesmo é ser anáfora.
Mas, senhor, mudarei para anacoluto.
Hipérbato, pensando bem, um tom diferente dá
Porém, como meu bem, aliteração também cai bem.
Não! Vou mudar! Voltarei a ser a antítese que sempre fui.
Ser e não ser, eis a questão ironizada.
Virarei, mundo louco, um apóstrofe.
Tentarei cantar, falar, sussurrar, gemer que agora sou Gradação.
Até meus cabelos estão a cantar, virei prosopopeia
Meus cabelos são cantores na metáfora.
E da metonímia só direi que em antonomásia sou o poeta da ocasião.
O poeta do momento no eufemismo é igual a você um sonhador.
E por fim serei milhões de poetas num só quando for Hipérbole. .

O cachorro e o peixinho

Por Xico Branco

Um cachorrinho estava tentando pegar sua bola que caiara num pequeno lago, tentava em vão puxá-la com sua curta pata. Um peixinho que assistia a cena do fundo do lago, ao perceber que a bola se distanciava cada vez mais, decidiu ir até lá. Nadou até perto e colocando a cabeça para fora perguntou:

 – Oi seu bicho peludo! O que estar tentando fazer?

 – Au, au, au. – Foi a resposta dada pelo cachorrinho que se assustou com as palavras do peixinho.

– Calma! – Disse o peixe. Sou amigo. Apenas quero saber o que você estar fazendo.

 – Ah sim! – Respondeu o cachorrinho. Eu to querendo pegar minha pequena bola. Estava brincando, ela rolou e caiu na água. Não sei nadar e tenho medo de entrar na água para buscá-la.

 – Olha amigo, eu poderia dar uma cabeçada nela e tira-la para você. –Falou o peixinho balançando a cabeça fora d´água. Mas já vi um igual você nadando aqui no lago. Sei que você pode nadar. Basta entrar na água e bater suas nadadeiras.

– Mas amigo, eu não tenho nadadeiras. Tenho patas. Sou um cachorro. – Disse ele mostrando as pequenas patas.

– Use-as para nadar. – Incentivou o peixinho. Veja como eu faço! E mostrando as suas nadadeiras ele as bateu contra a água.

– Eu tenho medo! – Retrucou o cachorrinho. – Pegue a bola para mim. – Insistiu mais uma vez. –

Não! Você terá que entrar na água e busca-la. Vamos, tente amigo!

Mesmo com muito medo o cachorrinho foi entrando vagarosamente na água.

 – Ai, ta fria! – Resmungou ele tentando voltar.

– Não volte! Continue! Você consegue amigo. – Encorajou o peixinho. Vamos estou bem do seu lado.

 O Cachorrinho foi cada vez mais para dentro da água até seu corpo flutuar. Quando ele percebeu que estava afundando bateu as patas freneticamente e, para sua surpresa, ele começou a nadar.

– Viva! Parabéns! – Gritava o peixinho para seu novo amigo.

– Consegui, consegui! – Dizia o cãozinho todo contente.

Enquanto eles brincavam com a bola, muito alegres agora. A mãe do peixinho que estava de longe observando tudo pensou consigo: “É, mais vale ensinar a pescar do que darmos o peixe”

Mania de Ser

 Por Xico Branco

Quem  trabalha  ou  trabalhou  em alguma  fábrica de Manaus e conhece o sistema de transporte que as empresas usam para levar e trazer seus  funcionários,  também  já devem,  como  eu,  ter passado diversas situações dentro  destes amigos nossos de cada dia: os ônibus de rota.
A  que  vou  lhes  narrar  é uma  vivida  por  mim  há alguns  anos. Certo dia, íamos  para  a  empresa logo pela manhã e o  ônibus pregou de repente. Ai foi que percebi  como  a  maioria  de  nós nestas  situações se tornam especialista imediato  da matéria.  Neste caso, mecânica de ônibus velho.
O  trambolho  havia  parado do nada numa  ladeira e não pegava de jeito nenhum.  A moçada imediatamente começou  o alvoroço:

– Empurra,  bota a mulherada pra empurrar. – Gritou um. Outro mais afoito disse:

– Foi o pino da parafuseta que quebrou!  – A gargalhada foi geral.

Aquele mais gaiato que não deixa nada passar em branco sem tirar uma casquinha, aproveitou e berrou lá de  trás:

– Isso é mulher de bode, meu irmão. Duvido se num é!

Pronto. A confusão estava feita. Foi o que faltava pras gatinhas e as já não tão gatinhas entrarem na onda. Foi uma chiadeira  geral.

Uma retrucou:

– Isso deve ser  algum corno magoado  que ta azarando a rota!

– Que nada!  Isso  é algum boiola camuflado que  tem aqui dentro. Ele deve ter brigado com o bofe e veio pra rota cheio de mágoa. –

Disse a Célia do Almoxarifado II.

Essa foi a campeã de risos até então. Foi  aquela  zona  geral. Enquanto isso o coitado do motorista tentava desesperadamente consertar o ônibus. Os colegas menos afoitos e que não entraram na onda  do xinga pai e xinga mãe,  davam suas catedráticas  opiniões:

– Eu tenho certeza que isso é carburador sujo! – Falou o João do áudio. O Zé lá do vídeo, retrucou na hora:

– Que nada! Se fosse carburador tinha engasgado antes e não  engasgou! Isso foi à pressão do  óleo que baixou e travou as roda.

– Ta doido Zé! – Gritou o Vítor da engenharia. Eu estudei mecânica na Escola Técnica. Isso é injeção eletrônica. Bico sujo!

– Então rasga teu diploma de engenheiro sua anta! -Disse rindo o hilário Nonato da manutenção. Tu achas mesmo que essa lata vela tem injeção eletrônica é? Isso aqui é mais velho que a posição fazer necessidade agachado. É do tempo que lamparina dava choque!

– Pronto. Foi outro momento de risadas pra todo lado dentro do velho ônibus.
Nessa  mesa  redonda  de  claras  e  objetivas  opiniões sobre a ciência  das leis  do  movimento  e  do  equilíbrio; que teoricamente  explicavam  a  ação e o  efeito dos vários  porquês  relacionados  ao  fato; eu, quieto e calado. Atenciosamente ouvindo, mas não  entendendo nada. Num dado momento pensei em alertar os caros colegas que estávamos num ônibus velho e não num foguete a caminho da lua, dado a gama e o teor de algumas opiniões, do tipo que:

– …Aquilo era  coisa  da aerodinâmica do  chassi lateral, que estava  em  desacordo  com  a  potência  real  de empuxo do  motor,  em  relação  ao  efeito  do  ar,  numa  subida  de  45 graus. – Firmemente  defendida pelo Leonel  lá do CQ. Depois descobriria que ele era meio maluco mesmo.

Graças a Deus  não  foi preciso minha  intromissão. O tempo  havia  passado  é já chegava  outro  ônibus  para  dar continuidade à rota.

Eu, agradecido, sorri. E sem falar, apenas pensando, descobri que o burro ali era eu. Pois não entendia patafinas de  prego  de  ônibus.  Mas  que seguindo o ditado e mantendo minhas  orelhas abaixadas,  havia ganhado uma estória de  mão beijada.

Desculpa bem bolada

Por Xico Branco

Rodrigo era considerado um rapaz comum. Na rua onde morava era mais um dentre muitos. Tinha os mesmos hobby da turma; estudava no mesmo colégio do bairro; jogava bola de tardinha com a moçada, enfim, levava uma vida normal. Seu pai era carpinteiro. E sempre que podia lhe dava algumas dicas da profissão, que já com treze anos. – pensava o pai. Devia aprender uma profissão. Afinal de contas, daquela velha carpintaria tirara e tirava o sustento da família até hoje com muito orgulho. Vira para Manaus em sessenta e nove com a mulher e a filha mais velha, Lúcia. Aquela época foi morar no bairro de Educandos, próximo a feira da Panair em um quartinho alugado de três por quatro. Trabalhara de carregador, peixeiro, vendedor de merenda, enfim, fizera de tudo um pouco. Carpintaria era coisa que ele não tirara da mente nenhum instante: – “Um dia ponho minha oficina e vou trabalhar tranquilo”. – Dizia Seu Raimundo sempre.

A vida era dura. Dinheiro difícil. Lúcia estudava o primeiro grau no Colégio Estelita Tapájos, afinal  levava como um dos nomes o famoso rio de sua terra natal, Tapajós. E isso era uma lembrança boa para eles.

Do último trabalho como vendedor de merenda conseguiu juntar algum dinheiro. Pouco; mas o suficiente para em 1980 comprar um chão lá no bairro da Glória, onde viveriam até 1995. Na glória, já no que era seu, colocou sua tão sonhada Carpintaria e levou a cabo sua profissão de coração. Seus móveis faziam sucesso e a freguesia era muito boa. Em 1990 as coisas começaram a dar pra trás na Movelaria. Os pedidos eram poucos; mal dava pra comer e comprar madeira. A madeira havia aumentado muito nestes últimos anos e isso levava as pessoas a darem preferência pelos compensados e aglomerados dos móveis das lojas. Por isso, em 95,  Dona Ana, Lúcia, Seu Raimundo e agora Rodriguinho, decidiram em conjunto vender a casa e ir para outro bairro onde a oferta de clientes fosse melhor.

Depois de muito procurarem um lugar adequado as suas novas expectativas. Decidiram pela Cidade Nova I e pra lá foram. Compraram uma boa casa com terreno de dez por trinta, que já possuía nos fundos um belo galpão, levantado do muro até mais ou menos uns quatro metros do terreno; sendo esse um bom espaço para sua oficina. Logo no primeiro mês conseguiu ótimos pedidos. Isso porque antes de fechar negócio na casa havia dado uma sondada na área e vira que não havia nenhuma movelaria por perto. Bem, aqui começa a estória que quero narrar para vocês.

Rodrigo era o xodó de Seu Raimundo. Tudo que ele queria era que o filho se formasse em doutor. Pra isso deixava o moleque bem à vontade no serviço. Não cobrava dele mais que algumas peças lixadas por dia, mesmo porque tinha dois trabalhadores bons para o serviço, que contratara na comunidade.

A escola era sagrada. Os deveres de casa e as provas do filho eram motivos de severas observações de Seu Raimundo todos os dias. As notas de Rodrigo eram boas. Ele já estava na oitava série no ano de 96. No mês de maio as notas do menino começaram a cair gradativamente até o ponto de tirar sua primeira nota vermelha. Seu Raimundo quase fica doido. Foi bater na escola pra falar com a Diretora. Descobriu que Rodrigo desde que havia entrado para o grupo de dança de Boi Bumbá da escola que não pensava em outra coisa. Entre os colegas era fácil o ouvir dizendo que iria ser dançarino de toada de um grande cantor. Esse era o seu grande sonho.

– Pronto! Era o que me faltava. Esse moleque nunca me deu trabalho e agora vem com essa. – Resmungava Seu Raimundo para a Diretora do colégio.

– Olha Seu Raimundo, eu juro que pensava que o senhor sabia de tudo, pois quando foi preciso a autorização do responsável para ele entrar no grupo de dança e ser dispensado da educação física, ele até trouxe a autorização que eu mandei para a sua casa assinada por sua esposa, a Dona Ana. Olhe é esta a autorização.

De novo Seu Raimundo mudou de fisionomia.

– Num acredito, até a Ana sabia disso! Ela me paga!

– Ora Seu Raimundo, ele é ótimo dançando. O senhor precisa ver. O seu filho tem um grande futuro. E essa é a nossa cultura, pense bem. Aliás, ele foi inscrito num grande concurso que um famoso levantador de toada está promovendo para escolher um dançarino. Eu acho que ele tem todas as chances de ser vencedor. Dê uma chance pro seu filho Seu Raimundo!

– Mas Dona, eu quero que esse menino seja é doutor, não uma marica de dançarino de boi rebolando pra lá e pra cá com roupa de índio. Onde já se viu índio branco. O quê que meus vizinhos vão falar de mim. E meus conterrâneos? Ai meu Deus! Eu mato esse moleque! Deixa eu chegar em casa que ele me paga. – Dizia seu Raimundo em estado de raiva e perplexidade.

– Calma Seu Raimundo. Olhe o que lhe falei. Pense bem! – Tentava em vão a diretora apaziguar a situação.

Lá foi Seu Raimundo bufando de raiva pra casa. – Ah moleque! Me enganando e ainda por cima com a mãe dele sabendo de tudo. A Ana também vai ter que me dá boas explicações sobre essa tal autorização, ah se vai. De tão transtornado, nem notara que estava falando sozinho no meio da rua.

Quando chegou em casa foi logo chamando todo mundo pra sala e esbravejando:

– Muito bem! Quem vai ser o primeiro a me explicar esse negócio de dançarino. Você Rodrigo? Você Ana? Ou até mesmo você Lúcia? Que pelo visto só eu é que não to sabendo de nada. – Questionou ele vermelho de raiva.

– Pai! -Disse Lúcia. Calma pai.  Agente ia te falar. Só que agente ta esperando o resultado do concurso que sai hoje. Nós mandamos um DVD que foi gravada lá no colégio para ser avaliado e daqui a pouco sai pela rádio o nome do vencedor. Tenha paciência, por favor! – Finalizou ela tocando em seu ombro carinhosamente.

– Quer dizer que eu faço tudo pra você ser doutor em seu moleque? E você quer ser marica de boi, é isso é? – Falou levantando-se com as mãos na cabeça.

– Olha aqui Raimundo – Interrompeu Dona Ana. – Respeite o seu filho. Ele só ta fazendo aquilo que o coração dele diz ser melhor para ele. – O tom de voz de suas esposa soara ríspido.

– Ah é! E eu? Onde fica minha moral de pai?

– Raimundo, meu velho. –Continuou Dona Ana. Lembra quando agente morava lá no Educandos e você vivia dizendo: Um dia coloco minha oficina de móveis!  Lembra?
Seu Raimundo balançou a cabeça positivamente, mas completou dizendo. – Sim!  E o que aquilo tem a ver com essa frescura?

– Tem a ver que aquilo era seu maior sonho homem. E eu sempre estive do teu lado, pois sabia que você ia ser mais feliz fazendo aquilo que realmente gostava e não se matando em coisas que te faziam lamentar a vida. Foi por isso que quando ele veio me pedir pra autorizar eu assinei. Eu pensei na felicidade de nosso filho, deixei de lado meus orgulhos bobos e pensei nele. Conversei muito com ele e vi o brilho nos olhos dele quando me pedia. Você não iria deixar Raimundo, nós sabíamos disso. Desculpe-nos, nós não queríamos te enganar, apenas estávamos procurando ajudar o menino. Entenda por favor!

Um breve silêncio tomou conta da sala. Repentinamente Lúcia o interrompeu:

– Venham, vai sair o nome do vencedor. Corram! Pai! Mãe! Vem Rodrigo!
Todos foram pra perto do rádio. Seu Raimundo seguiu meio cabisbaixo, ainda sem aceitar muito bem a conversa. Nisso o locutor anuncia:

-… e o grande vencedor do concurso. Que irá dançar no grupo do famoso cantor de toadas, Silvano, que estará inclusive  partindo para a Europa na próxima semana para uma grande quantidade de shows, é: Rodrigo da Silva, da Cidade Nova I!

Enquanto a euforia tomava conta de todos e a vizinhança já entrava porta adentro gritando e batendo palmas, Rodrigo abraçou seu pai, deu-lhe um grande beijo e disse:

-Pai! Eu te amo! O senhor me perdoa, por favor? – Disse olhando em seus olhos.

-Ora filho! – Dando uma breve pausa falou alto – Por favor! Todos venham até aqui. Eu na qualidade de pai do mais novo dançarino dessa cidade quero dizer algo pra todo mundo ouvir. Meu filho muito obrigado! Muito obrigado a toda minha família pela lição que me ensinaram hoje  e que vale pra cada um de nós. Se agente tem um sonho. Se ama fazer alguma coisa, devemos lutar para que ele se torne realidade. E quando perguntarem se o meu filho já é doutor vou dizer que sim. Ele já é doutor sim! Doutor de dança de boi! E serei cada dia mais orgulhoso do filho que tenho. – Finalizou ele com olhos banhados de lágrimas.

Enquanto uns se abraçavam e outros choravam de alegria. Lúcia já colocava um CD de toadas para que a  primeira apresentação oficial do campeão começasse.